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Leandro Karnal

Coluna semanal do historiador Leandro Karnal, com crônicas e textos sobre ética, religião, comportamento e atualidades

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Não tenho saudade do poder autoritário. Fico feliz de nossa democracia resistir, em meio a percalços

Houve um tempo em que um apito parava um clube. Vivemos outro, no qual nem o policiamento ostensivo detém pessoas

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PorLeandro Karnal
2min de leitura

Nasci na classe média interiorana dos anos 1960-1970. Frequentávamos as piscinas do Iguaçu, ligado ao Clube Orpheu, em São Leopoldo (RS). No calor surpreendente da grande Porto Alegre, ficávamos felizes com a abertura da temporada aquática.

Havia um funcionário apelidado de Fiapo. Infelizmente, eu nunca soube o nome real dele. Sempre de calção azul e camiseta branca, caminhava com um indefectível apito. Fiapo era a lei nas piscinas do Iguaçu. Vendo uma irregularidade dos jovens, advertia ou dava um “gancho”, uma suspensão, por uma semana, do direito de frequentar o espaço. Era um castigo terrível. Quando o apito silvava, todos olhavam: havia uma infração em curso.

'Ao final do turno do dia, ele apitava de forma longa, anunciando que todos deveriam sair da água. Estava encerrado o horário de banhos.' Foto:Laura Capelhuchnik/5Gbet

Poucas regras: era proibido aos maiores entrar na área rasa das crianças; pequenos infantes desacompanhados não poderiam aproximar-se da piscina funda. O mais importante: ao final do turno do dia, ele apitava de forma longa, anunciando que todos deveriam sair da água. Estava encerrado o horário de banhos.

Tenho uma memória antiga. Num dia, Fiapo soltou o som prolongado do apito regulador, mas um jovem, querendo aproveitar o último instante de prazer aquático, atirou-se com estardalhaço na piscina mais funda. O trabalhador fuzilou-o com o olhar e aproximou-se da borda, ordenando que o saltador saísse. Estava suspenso por uma semana!

Esse fato, hoje, causaria mais problemas. O poder de distribuir penalidades era dado a um funcionário do clube, e as crianças, de classe média e alta, deveriam obedecer. Não me lembro de algum pai aparecer lá, com esquadrão familiar e advogados, alegando trauma indelével. Nós não contestávamos as regras. O Brasil era uma ditadura; as famílias eram autoritárias; Fiapo, a capilarização final de um sistema de mando. Soprado o apito, ninguém mais poderia entrar, e todo mundo deveria sair. O jovem infringiu um código? Punido! Era um fiapo de lei que Fiapo administrava.

Tudo mudou. Não tenho saudade de poderes discricionários. Fico feliz pelo fato de que nossa democracia sobreviva em meio a percalços. Talvez os jovens pudessem, ao menos, apresentar o contraditório, base de qualquer sistema jurídico equilibrado. Houve um tempo em que um apito parava um clube. Vivemos outro, no qual nem o policiamento ostensivo detém pessoas. Como ter ordem sem ditadura? Perdemos alguns fiapos no processo. Esperança?

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