pinnacle

PUBLICIDADE

PorMichael Barron
Atualização:

THE WASHINGTON POST - Tchevengur, o primeiro e maior romance do escritor russo Andrei Platônov, conta duas histórias: uma parábola irônica da Rússia soviética emergente e a história lamentável da publicação do livro. Quando Platônov o terminou, no final dos seus 20 anos, pouco tempo depois da morte de Lênin, os primeiros leitores advertiram o jovem romancista contra a loucura de enfatizar a realidade em detrimento da glória. Veja abaixo informações sobre a edição nacional do livro.

PUBLICIDADE

“Quero avisá-lo agora”, disse seu editor após ler um rascunho em 1927, “para corrigi-lo e eliminar a impressão que ele causa”. O escritor Máximo Gorki foi mais direto: “Independentemente de qual era seu desejo, você retratou a realidade sob uma luz lírico-satírica que é, obviamente, inaceitável para nossa censura”. Josef Stalin simplesmente escreveu “desgraçado” sobre o trabalho de Platônov.

Lendo o livro, esses sentimentos parecem razoáveis. Muitas palavras coloridas poderiam descrever Tchevengur- hilário, angustiante, poético, mítico - mas lisonjeiro, pelo menos em relação ao comunismo estatal, não é uma delas. Embora Platônov acreditasse ter escrito uma “tentativa honesta de retratar o início da sociedade comunista”, sua editora britânica o apresentou como “o Dom Quixote soviético”, uma frase que é bem apropriada.

O russo Andrei Platonov morreu em 1951 sem ter visto seu romance publicado integralmente Foto:Wikimedia Commons/Domínio Público

A cidade que dá nome ao livro, onde se passa metade da história, e a região semelhante à de La Mancha que a cerca, estão repletas de personagens quixotescos envolvidos no espírito de uma revolução que está os engolindo vivos. Interpretando o romance como ridículo, Stalin proibiu a publicação de Tchevengur. Embora Platônov tenha escrito (e sido publicado ocasionalmente) até sua morte em 1951, seus romances permaneceram censurados até que Mikhail Gorbatchov desse início à era da Glasnost.

Os elementos absurdos do romance ficam ocultos em seu primeiro terço, que é o mais poético. Somos apresentados a Sasha Dvanov, um jovem de vida dura nascido em uma época de grande fome e pobreza. As condições são tão ruins que seu pai se afoga para ver se a vida após a morte melhora. Sasha fica sob os cuidados de Zakhar Pavlovich, um amigo de seu pai e um trabalhador de trens impassível.

É Zakhar quem ajuda Sasha a se alistar no exército bolchevique, embora ele argumente com um membro do partido que, em essência, “todo poder é poder soberano” e que as pessoas devem ser deixadas sem supervisão. “Esse é o pequeno burguês em você falando”, retruca o oficial do partido. “Você verá.”

Platônov não tinha vergonha de permitir que os personagens falassem o que pensavam, mesmo que, na vida real, o que eles diziam faria com que fossem mortos na hora. “Vocês nos dão a terra e depois confiscam até o último grão que plantamos nela”, reclama um camponês sobre a política de requisição de grãos. “Bem, se é assim, que você se engasgue com essa terra.”

Publicidade

Capa de 'Tchevengur' (de título original “Chevengur”), de Andrei Platônov, com tradução para o inglês de Robert Chandler e Elizabeth Chandler. Foto:NYRB / Divulgação

Depois da guerra, Sasha é encarregado de procurar vilarejos onde o comunismo tenha sido bem recebido. Ele é acompanhado por Stepan Kopionkin, um cavaleiro errante da causa que monta um cavalo chamado Força do Proletariado e tem uma imagem de Rosa Luxemburgo, sua musa, costurada dentro de seu boné.

Sasha e Kopionkin são devotados ao ideal de comunismo de Marx, embora nem Kopionkin nem muitos dos camponeses que eles encontram tenham de fato lido sua obra. A compreensão incompleta que eles têm de seus princípios mostra Platônov em sua melhor forma satírica: os habitantes de um vilarejo assumem nomes como “Fiódor Dostoiévski” e “Cristóvão Colombo” para fazer jus a seus legados. Em outro, um velho bolchevique defende um memorial ao comunismo mundial com uma armadura e granadas defeituosas.

É em Tchevengur, um lugar mais metafórico do que material, que Sasha e Kopionkin descobrem uma forma de comunismo extrema. O caminho narrativo do romance se torna mais frágil com a chegada dos protagonistas ao local, pois Platônov volta sua atenção para o desenvolvimento dessa utopia. Aqui, o sol é o principal trabalhador, e dois comunistas ferrenhos eliminaram violentamente todos os elementos burgueses.

Para repovoar a cidade, eles trouxeram proletários, prostitutas e outros, descritos como “piores que o proletariado - nenhum e ninguém”. Sasha cria uma aparência de ordem e, ao fazê-lo, torna-se uma espécie de messias. Mas isso dura pouco. A cidade é atacada por um destacamento de soldados de um exército desconhecido. Sobrevivendo, diferente de seus companheiros, Sasha decide voltar para seu pai no lago.

‘Tchevengur’ reflete história de Platônov

PUBLICIDADE

A vida de Sasha foi inspirada em parte pela trajetória de Platônov. Nascido na cidade de Voronezh em 1899 e filho de um mecânico de trens, o autor cresceu em uma época marcada por guerra, fome e revolução. Tomado pelo fervor do comunismo, Platônov deixou de lado sua carreira ascendente como escritor para se tornar engenheiro.

Em 1921, ele foi enviado para a região rural de Volga, onde a fome havia retornado, para gerenciar projetos de recuperação de terras, limpando e fertilizando as estepes para as plantações, um trabalho que o expôs às limitações do projeto revolucionário. Esse era o problema que enfrentava: ele não podia deixar de documentar o atraso que observava nas estepes. Nas palavras de seu tradutor de longa data, Robert Chandler, Platônov foi “traído por seu próprio talento”.

Andrei Platônov deixou de lado a carreira de escritor para se tornar engenheiro, antes de retornar à atividade. Foto:Wikimedia Commons/Domínio Público

Embora uma edição russa de Tchevengurnão tenha sido publicada oficialmente até 1988, versões dele já haviam aparecido em outros lugares: primeiro em 1971, em uma tradução francesa de uma cópia de samizdat- técnica que se popularizou na época para driblar a censura de países do bloco soviético, geralmente feitas à mão ou datilografas -, e depois em inglês, alguns anos mais tarde.

Publicidade

Chandler considera essa primeira tradução como “marcada por erros graves”, e seu diagnóstico é confiável. A prosa lírica de Platônov, salpicada de piadas e alusões simbolistas, tem sido objeto de estudos aprofundados sobre o texto, incluindo o de Chandler, nas décadas desde seu lançamento.

Esta nova edição de Tchevengur, traduzida para o inglês por ele e por sua esposa, Elizabeth Chandler, incorpora alterações feitas por Platônov que nunca foram incluídas na primeira cópia publicada, juntamente com mais de 100 páginas de material suplementar que ajudam a decifrar o romance e a exonerar seu autor. São esforços desse tipo que restauraram a reputação de Platônov como um dos maiores escritores do século 20.

Com a conclusão da retradução de seus romances, a editora NYRB afirmou o lugar de Platônov no cânone da censura soviética - onde ele se junta a nomes como Mikhail Bulgákov, o poeta Osip Mandelstam e o cronista Vasily Grossman (bom amigo de Platônov). Platônov não é apenas uma voz de sua geração, mas um sábio para a nossa, alertando-nos de que as falhas do idealismo humano estão condenadas a ofuscar suas visões concretas.

Serviço

Tchevengur (de título original “Chevengur”)

Autor: Andrei Platônov, com tradução para o inglês de Robert Chandler e Elizabeth Chandler

Editora: New York Review Books (NYRB)

Preço: R$ 110,11 (em inglês) | E-book: R$ 83,67

Publicidade

Tchevengurtem edição nacional, com tradução para o português de Graziela Schneider e Maria Vragova, publicada pela editora Ars et Vita. Preço: R$ 79,90 | E-book: R$ 55,00.

Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do pinnacle.

pinnacle Mapa do site