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O canibalismo das crenças tende a se transformar em opressões que levam à discórdia e à guerra

O ‘bicho-homem’ morre, mas suas crenças, realizações e poder transformador ficam como prova desse intrigante canibalismo

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PorRoberto DaMatta
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Em tempos diluvianos, éramos todos animais. O primeiro canibalismo veio com a “alma” e com a consciência facultada pela linguagem articulada que permitiu distinguir o vivido do compreendido. Daí, dizem os especialistas, nasceu o cisma entre animalidade e humanidade. Dele nasceram o “bicho-homem” e o “homem-bicho”.

Um segundo canibalismo foi alimentado pelo fogo que, como mostrou Lévi-Strauss, criou a oposição complementar entre o cru e o cozido, afastando ainda mais a distância entre uma animalidade governada por instintos inseparáveis dos seus portadores, do “bicho-homem” moderado por regras, mandamentos, crenças - pelo que os antropólogos chamam de “cultura” que, ao lado dos múltiplos idiomas, chega de fora para dentro e poderosamente nos engole.

'Eleição livre flerta com revolução e rebelião. Todo candidato é contra o status quo. E mesmo não sendo esquerdista, ele sempre apavora os esquerdo-populistas, transformando-se em conservador e reacionário. Foto:Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Esse indispensável conjunto de hábitos e costumes, de idealizações e simbolismos, forma o espaço com o qual nos confrontamos no decorrer de nossas vidas. O sociocultural é um desconjuntado conjunto que fabrica o “bicho-homem” - expressão disparatada que sabiamente caracteriza a condição humana, pois - como mostra a História - não são poucas as situações nas quais o “bicho” canibaliza o “homem”.

Esse canibalismo das crenças quase sempre é dogmático. Ele tende a se transformar em abomináveis opressões e preconceitos que levam à discórdia e à guerra, mas, no entanto, faz parte dessa nossa “natureza” desnaturalizada, repleta de contradições e perplexidades. O “bicho-homem” morre, mas suas crenças, realizações e poder transformador ficam como prova desse intrigante canibalismo.

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O bicho faz perna com o homem. O homem canibaliza, mas é canibalizado e cozido pelo bicho que, por sua vez, faz perna com o cru. O fogo e a palavra são mediadores desse processo de conformação, mas nem sempre o cozido é saboroso ou a palavra é razoável ou ouvida.

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Eleição livre flerta com revolução e rebelião. Todo candidato é contra o status quo. E mesmo não sendo esquerdista, ele sempre apavora os esquerdo-populistas, transformando-se em conservador e reacionário.

Entretanto, uma vez empossado, o candidato cru e “maluco” é cozido e canibalizado. Pelo partido e pelos conchavos malandros nos parlamentos. Em seguida, pela conjuntura na qual ele foi eleito. Por fim, mas de modo algum por último, pelos amigos, compadres e parentes.

Na primeira noite com a mulher, depois de eleito presidente, a orgulhosa esposa primeiro sugere e depois, em pleno processo de canibalização, demanda: amor, meu irmão bem que podia ganhar uma embaixada ou um ministério.

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